sexta-feira, 19 de junho de 2009

Lembranças alemãs – Final

Bem, caros leitores, nem tudo foi negativo na minha experiência pelas plagas alemãs. Ao contrário, depois da chegada ao Instituto Goethe em Bad Godesberg, tudo melhorou. Após o teste e a matrícula, um táxi contratado pelo Goethe me esperava para me levar até a casa onde iria morar por dois meses. Fui recepcionado por Frau Lersch, uma senhora sorridente, afável e muito simpática, tipo vovó de contos de fada, que me mostrou a casa de três andares, grande e espaçosa, e o quarto onde iria ficar hospedado. Tinha uma cozinha e um banheiro só para mim. Na cozinha, ela havia preparado um lanche para me esperar. Com uma voz bem calma e bem pausada, explicou-me os procedimentos da casa, onde deveria fazer compras, pegar ônibus ou trem, etc. Fui informado que tinha como vizinha de quarto uma atriz de televisão que morava ali com seu filho, mas que estavam viajando. O quarto era bem agradável, com sofá, estante, armário, mesa e cadeira para estudo, e ela havia comprado uma televisão especialmente para mim, conectado aos programas a cabo, com um fone de ouvido para ouvir na altura que quisesse sem incomodar os vizinhos.

No outro dia começo minha aventura de descoberta do meu espaço. Abro a janela e descubro que meu quarto dá para um jardim e um bosque atrás do qual fica o rio Reno. Claro que imediatamente me lembro das minhas aulas do Themen e fico louco para fazer uma viagem ao longo do rio (am Rhein entlang) mesmo com o frio invernal. Ando até o supermercado que ficava um pouco distante da casa e, para minha surpresa, descubro que teria que colocar um marco para poder usar o carrinho do supermercado e que precisaria pagar pelo saco para colocar as compras. Fico achando tudo uma grande exploração do capitalismo alemão e de raiva resolvo não colocar o carrinho de volta no lugar. Em casa, Frau Lersch com sua simpatia e vários mapas que havia guardado para mim me explica o caminho para o curso e como devo separar o lixo em contêineres específicos para metal, plástico, papel e material orgânico. Sua faxineira me informa onde devo pegar o ônibus e descer (a minha vovó-de-conto-de-fadas nunca pegava ônibus nem trem, pois só andava de carro, portanto não sabia o trajeto). Resolvo ir andando para ir explorando o caminho e conhecer as diversas embaixadas ali localizadas, mas logo desisto, não pela distância que durava uns vinte minutos de caminhada, mas pela chuva que começava a cair. No Goethe, descubro vários outros brasileiros. Na minha sala, éramos maioria: três, em meio a só um representante de cada país ali representado: Egito, Rússia, Romênia, Japão, Noruega, Suécia, Estados Unidos, Canadá, Suíça, Argentina, Israel, França, Coréia. A professora era uma graça: muito bonita e muito competente, mas infelizmente só ficou um mês conosco devido às rígidas leis alemãs de contrato de trabalho. A outra que a substituiu nem de longe estava à sua altura. Ao falarmos de nossas dificuldades do primeiro dia na Alemanha, descubro que havia cometido o maior mico e todos na sala riram da minha gafe e leseira cultural: a moeda de um marco é devolvida automaticamente quando você coloca o carro de volta no lugar. Fazem isso para evitar que as pessoas deixassem o carrinho em qualquer lugar, pois lá não há mão de obra barata como aqui, com vários empregados para irem atrás dos carrinhos deixados espalhados pelos estacionamentos. Como é que eu ia saber? Quanto aos sacos, descubro a razão: ao se cobrar por eles, os donos de supermercado obrigam as pessoas a usarem suas próprias sacolas e evitarem o desperdício e a poluição provocada pelos plásticos. Nada como um país e uma cultura politicamente corretos! Será que além de uma crise de energia no Brasil precisaremos também de uma guerra para ensinar o nosso povo a ser econômico, ecológico e precavido?

O resto da estada transcorreu de modo tranqüilo. Fiz vários amigos de diversas partes do mundo, passeamos bastante com passeios guiados ou não. Quase todas as noites íamos a bares, restaurantes e boates, tanto em Bad Godesberg como em Bonn e Colônia. Visitamos a universidade de Bonn (um projeto para o curso) que fica em um antigo castelo e a casa onde Beethoven nasceu, passeamos pelos castelos à beira do Reno, e várias vezes fizemos excursões a museus e igrejas antigas em Colônia, tudo organizado pelo Goethe. Através de um programa chamado de tandem partner, conheci uma pessoa maravilhosa com a qual trocávamos aulas informais de conversação, Gaby Althoff, que depois viria descobri ser uma das diretoras do DAAD. Encontrávamo-nos em cafés, bares e restaurantes de Bad Godesberg para a troca de prática das duas línguas, eu de alemão, ela de português. Gaby vem ao Brasil com uma certa freqüência, pois é encarregada do programa de intercâmbio universitário entre o Brasil e a Alemanha; por eu trabalhar na universidade, tínhamos muita coisa em comum a discutir e ficamos muito próximos. Sempre sorridente e muito amigável, ela convidou a mim e a um outro brasileiro que eu havia conhecido no Goethe a visitar a sua casa e a sua cidade que ficava do outro lado do Reno.

Além das viagens curtas de passeio programadas pelo Goethe para Düsseldorf, um grupo de alunos (em sua maioria brasileiros) resolveu ir de trem-bala (chega a 280 km/h) a Berlim no intervalo entre as aulas. Ficamos em um albergue, e para nossa surpresa, no quarto havia mais um brasileiro e um italiano que também resolveu juntar-se ao nosso grupo para os passeios. No bar do albergue, mais dois alemães também aderiram ao grupo e, para nova surpresa dos brasileiros, descobrimos que um deles falava português muito bem, pois havia feito intercâmbio e morado seis meses em uma cidade do Rio Grande do Sul. Em Berlim, uma cidade fascinante pela qual me apaixonei e que me pareceu ser a cidade que mais cresce na Europa, visitamos e fizemos tudo que tínhamos direito e nosso tempo permitia. Chegamos até a presenciar uma demonstração de grupos de esquerda protestando contra uma facção neo-nazista perto da torre de Brandeburgo.

Também aproveitei a pouca distância e os descontos de trem em fins de semana para visitar amigos em Amsterdam. Com outro brasileiro de São Paulo, fomos de trem ao longo do Reno até Koblenz e de lá, ao longo do rio Mosel e suas videiras, até Trier, uma cidade linda da época do império romano. É um passeio belíssimo e imperdível! Aproveitamos a pouca distância e fomos até Luxemburgo, um pequeno e lindo país na fronteira da Alemanha, cuja beleza também me encantou!

Há muito mais para relatar sobre os meus dois meses na Alemanha. Aconteceram muitas coisas boas, muitas coisas engraçadas, e até um terremoto e um trágico acidente de trem enquanto estava por lá. Infelizmente o espaço é curto e devo concluir. Espero que um dia, ao visitarem ou retornarem a esse país e passarem por esses lugares, lembrem-se de minhas aventuras, sorriam, e sejam felizes com as minhas lembranças, assim como eu me sinto feliz agora e sinto saudades ao lembrar de todas as coisas que lá me aconteceram, dos amigos que fiz e que não sei quando mais verei, do sotaque sensual do alemão afrancesado de Muriel, minha ex-colega da Suíça, da lembrança de seus olhos lacrimosos ao se despedir de mim, de Evelien, a amiga belga que depois foi para a Espanha, da comemoração do meu aniversário em Colônia ao lado de Jael, colega da UFBA, que estava por lá pesquisando para o seu doutorado, da festa de despedida que Frau Lersch fez para mim . . . Espero ainda que vocês tenham se divertido com o meu relato, assim como eu me diverti (e me divirto agora) até mesmo com os contratempos. Tchüss.

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