sexta-feira, 19 de junho de 2009

Lembranças Alemãs – II

Para quem não leu o informativo ABEBA no 1, aqui vai um pequeno resumo daquilo que vocês perderam. No primeiro número, relatei o início da minha aventura alemã: a minha chegada a Colônia e os problemas com a conexão ferroviária. Interrompi a narrativa no momento em que chegava a Bonn e, como prometido, agora a continuo com a descrição de um fato inusitado. Embora ache isto divertido agora, no momento do ocorrido o fato foi bastante preocupante, como vocês verão a seguir:

Chego tranqüilamente à estação de Bonn em vinte e sete minutos precisos, sem a mínima noção de direção। Como sempre, essas estações têm várias saídas e fico sem saber qual escolher. Sei somente que preciso sair de debaixo da terra para ter idéia de onde me encontro. Descubro que qualquer direção me obriga a subir escadas e escolho a primeira que dá para uma pequena praça. Uma garota nota a minha dificuldade em subir as escadas com a minha mala; com um sorriso amigável, pega uma das alças e me ajuda a chegar até a rua, o que acho ótimo, feliz por descobrir que essa atitude inesperada contradiz a minha imagem estereotipada do suposto comportamento do povo alemão. Tentando desenferrujar o meu alemão, aproveito para perguntá-la onde havia um banco para fazer câmbio e se ela sabia onde ficava o Instituto Goethe, ou a rua Friedrich-Ebert. Pelo mapa que Neide, a simpática secretária do ICBA, havia me fornecido, essa rua ficava a poucos metros da estação de trem. A garota não a conhecia, mas me informou onde poderia trocar dinheiro e apanhar um táxi. Agradeço e sigo para o banco.

Mais uma vez, subo escada com mala, arrependido de ter trazido tanta roupa e pensando quanto dinheiro deveria trocar; troco cem dólares, e vou tentar apanhar um táxi, do outro lado da estação, pois sendo a escola perto ou não, a mala estava pesada. Atravesso a rua e me ponho em uma fila. Começo a estranhar quando entram duas ou mais pessoas da fila no mesmo táxi e me chamam para entrar. Recuso, agradecendo a oferta (Nein, danke) e continuo na fila. Novamente sou chamado e torno a recusar. Na terceira vez que me chamam começo a achar que os táxis de Bonn funcionam no esquema de lotação. “Será que aqui os táxis funcionam como as kombis e vans brasileiras?”, penso e acabo entrando no próximo, com mais duas pessoas. Quando digo o endereço para o motorista, acontece o inesperado: o homem se enfurece e bloqueio totalmente o meu conhecimento da língua alemã; não entendia uma só palavra do que o homem gritava. O tom e o contexto me indicavam que ele estava furioso e eu não sabia porque, só sabia que havia feito alguma coisa errada e que não devia ter entrado naquele táxi. O homem sai do carro, abre o porta-malas, agarra a minha mala e raivosamente a lança sobre a calçada, fala alguma coisa que não entendo para um homem com um papel na mão, que deduzo ser uma espécie de fiscal, e parte disparado. Quando falo para o homem-do-papel-na-mão aonde quero ir, ele vocifera alguma coisa totalmente incompreensível enquanto gesticula, como a indicar que é longe ou que devo pegar um táxi em outro lugar, e não me dá mais nenhuma atenção.

Fico parado no meio da rua, sem entender nada e sem saber o que fazer. Não adiantou nada o fato de eu ser estrangeiro para ele ter um pouco mais de paciência. Quem sabe isto aguçou ainda mais sua intolerância? “Calma, Décio, não deve ser isto”. Será que falei algo politicamente incorreto? Lembrava de ter usado todas as formas polidas, a famosa fórmula mágica Entschuldigen Sie, bitte! [“Desculpe-me, por favor”] que meus professores haviam garantido ser o “abre-te Sésamo” para as portas do paraíso germânico. Lembro de ter usado a forma respeitosa Sie [“O senhor, a senhora”] para não ofendê-los com intimidades desnecessárias provocadas pelo Du [“Você”]. O que então provocava a ira wernerherzoguiana dos homens alemães? Lembram do filme Aguirre, a cólera dos deuses?

Com medo de me dirigir ao homem novamente e ele acabar chamando um guarda para me prender por não compreender nada do que ele diz ou por não me fazer entender, ocorre-me então ligar para o instituto Goethe, o que faço em seguida ao descobrir um telefone। Por sorte, ainda tinha um cartão telefônico alemão, que havia comprado no aeroporto de Frankfurt antes de ir para Paris. Felizmente uma voz solícita me atende, e já apelando para o inglês, com medo de outros desentendimentos e ser mandado para um manicômio, esclareço o ocorrido. Graças a Deus a voz me compreende, e ela também não entende a atitude do motorista. Pergunto se posso ir andando e ela me diz que não, que fica longe, e só então descubro que o instituto fica em outra cidade, Bad Godesberg, e não exatamente em Bonn. Me diz para pegar o trem ou o metrô, digo que estou com uma mala pesada e ela me aconselha então a tentar pegar um táxi novamente. Saio da cabine e um senhor simpático me informa que havia esquecido meu cartão no aparelho e volto para apanhá-lo. Pelo menos atitudes mal-educadas estavam sendo compensadas por simpatias.

Vou então tentar novamente conversar com o suposto fiscal que mais uma vez fala e eu não entendo nada. Pergunto a ele se fala inglês e ele berra que não. Continuo a apelar para ele sobre como e onde devo apanhar um táxi, decidido que dali não saía enquanto ele não me desse a informação correta. Nunca havia vivido situação mais surrealista do que aquela: como é que não se pode pegar um táxi em um ponto de táxi em frente a uma estação de trem?

Finalmente, depois de um turbilhão de palavras sem nexo, consigo decifrar a frase Sie müssen bezahlen, “o senhor tem que pagar”. Ahá! Então é isso? Era essa a fórmula? Será que o homem estava pensando que eu queria pegar o táxi de graça? Será que a minha aparência denunciava a condição de pobreza terceiro-mundista de meu país e ele achava que, como a maioria dos políticos, eu era corrupto e caloteiro, ou que não tinha condição de pagar a minha parte da dívida externa nesta corrida? Ou será que ele lia pensamentos e descobriu que estava ali com uma bolsa de estudos do governo alemão e se irritou por eu estar usando dinheiro do contribuinte para pegar um táxi? Respondo ao mesmo tempo feliz e indignado: Aber ich möchte bezahlen! Disse “mas eu quero pagar!” como a querer dizer: “não estou querendo viajar de graça não, meu senhor! Troquei cem dólares exatamente para pagar o táxi! Onde já se viu viajar de táxi de graça?”। Parece então que uso a chave certa; uma porta se abre e ele, depois de continuar com seu dialeto incompreensível, fala com um motorista que se prontifica a me conduzir.

Dentro do carro, com o meu alemão ainda enferrujado, volto a tentar desvendar o mistério com o motorista, que, para a minha alegria, era bem mais simpático e falava um alemão bem mais compreensível। Pelo que ele me explicou e o meu alemão até então bloqueado me permitiu entender, há um tipo de passagem de trem que dá direito a táxi. Aqueles táxis haviam feito um acordo com a companhia de trem DB (Deutsche Bahnhof), e os passageiros tinham direito a se deslocarem para uma determinada direção dentro de Bonn, mas eu estava indo para Bad Godesberg, que é uma outra cidade.

Agora, me digam, como é que um estrangeiro iria saber disso ao desembarcar em uma estação alemã? Pelo que me constava até então, ponto de táxi é para se pegar táxi e pagá-lo, em qualquer parte do mundo. Mas ali mudaram a regra exatamente no momento da minha chegada e não me avisaram nada. Felizmente cheguei são e salvo ao Instituto Goethe, que realmente, ficava perto da estação de trem, mas de Bad Godesberg! Quis matar a pobre da Neide por não ter me dado essa informação crucial, mas então lembrei que a culpa era do pessoal do Goethe que não havia respondido os e-mails que enviara.

Após atravessar um mar de malas, me deparo com a secretária simpática que havia falado comigo ao telefone. Ela então me encaminha para uma sala para fazer uma entrevista e o teste de nivelamento. Surpreendo-me com a minha própria fluência no alemão. O alívio de estar em um local seguro, em ser bem tratado, em um ambiente conhecido de salas de aulas parecidas com as do ICBA, isso tudo desbloqueou o entrave que o taxista e o homem-do-papel-na-mão provocaram no meu alemão. De repente, como Emília depois de tomar a pílula falante, disparo a falar com a maior naturalidade, como se estivesse ali há meses, surpreendendo até o professor avaliador que acha até que não necessito de um teste de nivelamento, só se eu quisesse. Opto pelo teste, mas antes sou encaminhado a uma sala cheia de comida para fazer um lanche. Pausa para abastecer o estômago, que a essa altura roncava de fome. O resto da história fica para o próximo número, se vocês ainda me agüentarem.

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