sexta-feira, 19 de junho de 2009

Lembranças alemãs

Ver um lugar pela segunda vez sempre causa uma sensação estranha. Essa sensação, descrita em poema por Fernando Pessoa, traduz o que Freud definiu como das Unheimliche, aquele sentimento de estranheza na familiaridade, quando algo que nos é próximo torna-se distante, e que a língua alemã permite no seu jogo de opostos na construção da palavra.

E foi assim, com olhos de segunda vez, que desembarquei na estação de trem de Köln, e ansioso procurei entre os fragmentos de lembranças de dez anos atrás um anúncio que havia marcado muito a minha memória daquele local: ECHT KÖLNISCH WASSER, “A verdadeira água de Colônia”. Lembro que na época fiquei intrigado com a possibilidade da existência de uma água falsa, não a perfumada, mas a de beber, uma vez que a existência da verdadeira implica a possibilidade da falsa. Já imaginou como seria bebermos simulacros de água? Questões filosóficas (que bem se adéquam ao espírito alemão) à parte, lá estava o letreiro, do mesmo modo que antes. O formato abobadado do teto da estação também correspondia às minhas expectativas, como a confirmar o Willkommen (Bem-Vindo) que um outro cartaz anunciava, dessa vez da Deutscher Bahnhof (DB). Só mais tarde iria descobrir frustrado que as boas-vindas não eram dirigidas especificamente a mim, pois elas se espalhavam em cartazes com o mesmo padrão DB por todas as estações de trens alemãs.

Ali estava eu, de volta ao passado, em uma cidade cujo nome havia se tornado sinônimo de perfume। Lembranças da primeira vez fervilhavam na minha mente, quando, em passeio pela Europa, visitara uma amiga alemã, estudante de medicina, que havia conhecido numa viagem entre São Francisco e Nova York। E lá também estava ela, não a minha amiga, que se perdeu nas mudanças de endereços da vida, mas a catedral gótica imponente, o Dom, que havia resistido ao tempo e às guerras, assim como resistira ao meu esquecimento. Sabia que detrás da catedral estavam dois museus famosos e que ali perto estava o Reno. E a minha amiga, por onde andaria? Seria agora uma médica famosa? Em que canto da Alemanha, da Europa ou do mundo ela se esconderia?

A mudança de língua de certa forma me assustava um pouco। Afinal, há anos que interrompera os meus estudos de alemão no Instituto Goethe de Salvador e há muito não praticava essa língua. Vindo de Paris, me sentia muito mais confiante em falar francês do que alemão, devido à facilidade de improvisar em uma língua mais próxima do português do que em uma língua germânica, onde a probabilidade de cognatos é bem menor. Em alemão, ou se sabe a palavra ou não, as chances de improviso são raras. Não pretendia de modo algum ter que apelar para o inglês, minha segunda língua, já que estava ali para falar alemão. Dessa forma tentava justificar o meu receio.

O trem chegara a tempo de fazer a minha conexão para Bonn. Depois de testar a ferrugem do meu alemão, sou informado pelo condutor sobre a plataforma a qual devo me dirigir. E lá vou eu, sendo empurrado por uma mala escada abaixo e puxando-a escada acima. Como geralmente acontece nessas situações, alguma coisa inesperada sempre surge, e o meu suposto trem atrasou. Ao confirmar a informação com um grupo de jovens ao meu lado, pois a essa altura não confiava nada em meu Hörverstandnis das vozes metálicas lançadas dos alto-falantes da estação, para meu terror descubro que o código do meu trem está errado, falta uma letra no bilhete comprado em Paris. “Por que essas coisas sempre acontecem comigo? E agora, será que vão me deixar viajar?”, penso tentando disfarçar a minha ansiedade.

Depois de sofrer em silêncio a espera do trem e o medo de chegar atrasado no Instituto Goethe de Bonn, resolvo consultar o condutor de um trem chique que acabara de chegar, vindo de Berlim com direção a Bonn. Ele confirma o que já sabia, mas me permite embarcar, embora aquele não seja o meu trem. Aceito a gentileza de bom grado e adentro o trem-bala contente por não ter que prolongar mais o meu sofrimento.

Havia várias poltronas vazias। Procuro uma que me acolha próximo a minha mala pesada e fico observando o luxo interno do trem e o letreiro eletrônico a informar dados da viagem. O trem parte e admiro a paisagem de uma tarde ensolarada e modorrenta de inverno, ansioso pela minha nova aventura alemã. “E se vier um outro condutor checar as passagens e descobrir que a minha não serve para este trem, o que vou fazer se ele me obrigar a descer na próxima estação?”, volto a procurar com o que me preocupar.

O que viria a acontecer depois, caros leitores, vocês não vão acreditar. Infelizmente vocês terão que esperar pelo próximo número, pois a comissão editorial só me reservou uma página e meia. Aguardem o próximo número!

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