A professora, recém-formada, acaba de fazer a chamada dos alunos e começa a corrigir o dever de casa, no seu segundo dia de aula.
- Ana, levante-se e leia sua redação
Ana levanta-se de sua cadeira meio ressabiada, pigarreia umas duas ou três vezes para afugentar o medo e então inicia sua leitura:
- “E a noite encobriu toda a Terra. E vieram anjos e arcanjos e tentaram inutilmente envolvê-la com sua luz. Mas a luz se fez fraca e a escuridão apagou toda a claridade. Os homens vaguearam cegos nas trevas com saudade da plenitude. E o infinito seguiu a esmo, rolando errante pelo espaço em busca da luz perdida.”
Ana olhou temerosa para a professora como a pedir aprovação. A professora seriamente comanda o silêncio por alguns segundos e, a seguir, começa o interrogatório:
- Muito bonito, Ana.
- Brigada, pró.
- Foi você quem escreveu isso?
- Foi, sim senhora.
- Não pode ser. Você está mentindo.
- Não, senhora.
- Ana, não minta para mim. Quem fez isto para você?
- Foi eu, professora.
- Não foi não. Não pode ter sido você.
- Por que não, pró?
- Você copiou isso de algum lugar, não foi? Foi da Bíblia?
- Não foi, não, senhora.
- Pode dizer que eu não me importo. Eu não vou lhe dar uma nota baixa por isso, não.
- Mas, professora, a senhora quer que eu minta? Se foi eu que escreveu isso...
(corrigindo) – “Quem”...
- Eu, professora.
- Estou sabendo. É o que você está dizendo. Estou apenas lhe corrigindo. Fui eu “quem” escreveu isso.
- Não, senhora!
- Não, minha filha. Não é nada disso. Estou corrigindo um erro de Português.
- Qual?
- “Foi” eu “que” escreveu.
- Não foi não, professora. Foi eu!
- Complete!
- O quê?
- Sua frase.
- Ela está incompleta?
- Está sim.
- Como é que ela pode estar incompleta se tem verbo e sujeito? Foi eu que escreveu e a senhora está dizendo que eu copiei da senhora?
(impaciente) – “Fui eu quem”, minha filha.
- Eu, professora, não já disse?
- Minha filha, se diz: Fui eu que escrevi ou fui eu quem escreveu.
- Nem uma coisa nem outra, professora, pois foi eu e não a senhora!
A essa altura a professora já não sabia mais o que fazer.
- Venha ao quadro e escreva essa frase.
- Qual?
- A que você acabou de dizer.
- Pra quê?
- Para você ver que não “foi eu que escreveu” e sim que “foi você quem escreveu isso”, ou “fui eu quem escreveu isso”.
A menina vai ao quadro, sem entender nada do que se passa na cabeça daquela professora exigente que havia implicado com ela, e escreve:
FUI EU QUE ESCREVI ISSO
- Agora escreva a outra.
- Qual?
- “Foi eu que escreveu”
- Não, professora, a senhora não escreveu nada.
- Ainda não, minha filha, mas ainda vou escrever um tratado sobre como lidar com alunas ignaras como você.
(Risos. A professora desistira de todos os conhecimentos de Psicologia da Educação).
- Eu sou ignorante, professora?
- Não, minha filha. Eu disse que você é ignara.
- Professora, a senhora não me xingue. Vou contar pro meu pai.
- Você pode contar para o seu pai, sua mãe, sua tia, seu avô, sua avó, seu bisavô, para o diretor da escola, até para o Presidente da República, que eu continuo achando a mesma coisa.
- Professora, meu pai é do Exército!
- E eu com isso?
- Ele pode lhe prender, sabia?
- Olhe aqui, minha filha, não tenho medo de ameaças de aluno nenhum, entendeu? Seu pai pode ser do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, ou de todas as forças Armadas juntas, que eu pouco estou ligando, pois estou dentro dos direitos que a Lei 5692 me compete e, se tem alguém aqui que pode ser preso, essa pessoa é você. Você sabia que plágio dá cadeia, Ana?
- Que plágio, professora?
- Esse aí que você acabou de cometer, copiando uma coisa e dizendo que é de sua autoria.
- Mas se foi eu que escrevi.
(corrigindo mais uma vez) – “Fui eu que escrevi”, Ana, ou “fui eu quem escreveu”, ou “foi você quem escreveu”.
- Foi eu, pró.
(gritando) – “Fui eu!”
- Não pró, fui eu.
-Está bem, Ana. Você pode ter escrito, copiando com sua letra, mas isso não quer dizer que foi você que escreveu. E vê se aprende de uma vez por todas que é “fui eu que escrevi”, ou “fui eu quem escreveu”.
- Tá bom, não foi eu não, professora, mas também não foi a senhora, não. A senhora quer mesmo saber? Foi a minha mãe! Ela é professora de português!

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