segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Maria Hortência com H

Simpática ela não era, mas também não era feia. Coitada! Como se isso fosse um pecado...
Todos os dias às seis da tarde ia ela pela rua, saltitando dentro de seu vestidinho rosa, cabelos lisos soltos ao vento, meio quilo de maquiagem pressionando sua pele e aumentando o seu peso a tal ponto que os saltinhos de ferro de seu sapatinho dourado mal suportavam o total desequilíbrio ecológico do seu ser.
A esquina entre a Gomes Carneiro e a Bulhões de Carvalho era o seu ponto preferido. Maria, como a maioria das marias Outro-Nome, preferia ser chamada de Hortência, com H, fazia questão de soletrar. Era mais chique, como era a mais chique das chiquitices transar na Vieira Souto. Cobertura então, era o sonho dourado. E duplex? Imagina! A simples idéia causava-lhe ânsias, um calafrio diferente na alma. Adorava ter várias opções de escolha, como ela própria costumava dizer. Não adiantava tentarem lhe explicar a proximidade semântica entre as palavras opção e escolha. Para ela era termo feito e muito bem feito. Chic! Vocês devem estar se perguntando por que a esquina entre a Bulhões de Carvalho e a Gomes Carneiro e logo às seis da tarde! Nem eu sei. Maria, desculpem, Hortência tinha lá os seus segredos que só a ela pertencem.
Eis que um dia vai ela cumprir seu ritual quando se depara com uma multidão que assistia à gravação de uma novela de televisão, bem no seu ponto. Mas logo ali, na sua esquina!, pensa um pouco desapontada enquanto resolve ir até lá e tentar ver um dos seus artistas favoritos, o seu “galão”, como ela chama; quem sabe ele não... treme só de pensar. Frustrada, Maria Hortência com H volta para casa sem ter visto seu galã preferido nem nem. Dorme desapontada, acorda fula de raiva e espera ansiosamente a noite chegar.
A noite finalmente chega empurrando Maria Hortência com H de Azevedo Fontes Silva para a rua.
Um casal para um carro na esquina.
- Meu bem, enquanto você sobe para entregar o presente de sua amiga, eu vou dar uma volta no quarteirão pois aqui não tem lugar para estacionar. Vá rápido e me espere aqui na esquina, tá?
E lá vem Maria Hortência com H, no seu vestidinho rosa e no seu sapatinho dourado, cabelos alourados dançando com o seu requebrar. Ao chegar à esquina e se deparar com aquela mulher parada no seu ponto, olhando aflita para todos os carros que passam, Maria explode:
- Você não tem outro lugar para fazer pista não, meu bem? Esse ponto aqui é meu, entendeu? Suei um bocado para achar ele e agora vem você querer roubar ele de mim.
- A senhora está enganada...
- Senhorita, faz favor.
- Desculpe, a senhorita está enganada, é que eu...
- Enganada coisíssima nenhuma! Hoje já não se pode ter mais opção de escolha que vem logo uma sirigaita querer tomar o que é da gente. Por que cê não vai batalhar no calçadão da Atrântica?
- Olha aqui, a senhora me respeite...
- Senhorita, num já disse? Não sou casada não, minha filha, e nem quero.
- Mas eu sou!
- O quê?
- Casada. Olha aqui a aliança.
- E eu lá com isso? Tá querendo vim tirar partido pra cima de muá? Aliança qualquer um pode comprar e usar...
- Olha aqui, dona...
- Sai pra lá, minha filha, que eu num sou dona de ninguém.
- E eu tampuco sou sua filha. Quer favor o favor de escutar? Deve estar havendo algum equívoco. Estou esperando...
Aquilo era demais para ela. Admitia tudo, menos uma colega que soubesse mais palavras difíceis do que ela.
- Quívoco coisa nenhuma! Tá querendo me ofender, é? Além de vim roubar o meu ponto, inda vem mim xingar a mim? Muá?
- Quer fazer o favor de ouvir, droga? Não me faça perder a classe!
- Crasse? Que crasse? Tenho muito mais crasse que você, fique sabendo. Já transei até em cobertura!
- Quer me ouvir? Eu estou esperando o meu marido que foi dar uma volta no quarteirão porque aqui não tinha lugar para estacionar.
- Nem vem que não tem, camarão. Essa história eu já conheço não é de hoje! Inventa outra que talvez pegue. E vai saindo daqui que esse ponto é meu e você já está espantando meus fregueiz!
- Sai pra lá você, sua descarada!
- Descarada é a mãe, viu!
- Escuta aqui, sua puta oxigenada...
Foi a gota d’água. Que chamasse Maria Hortência com H de puta, ainda ia, mas que não revelasse o segredo do seu sucesso.
- Oxigenada é a puta que lhe pariu!
E foi uma bolsada só na cara da mulher que caiu sentada na calçada, levantou-se, e partiu para cima da outra com unhas, dentes, e sangue escorrendo pelo nariz.
- Sua vaca!
- Sua porca! Égua imunda! Sai do meu ponto agora desgra... Larga o meu vestido rosa. Não rasgue ele ou eu te mato!
E Maria Hortência com H preparava-se para tirar o sapato dourado com o seu saltinho afiado, quando passou uma rádio-patrulha e separou as duas. Em volta já se formava uma pequena multidão de curiosos. Um dos policiais pergunta:
- O que é que está havendo?
- Eu estava parada aqui na esquina esperando o meu marido chegar quando apareceu essa vagabunda dizendo que eu estava roubando o ponto dela.
- É mentira, seu guarda! Ela tava mesmo fazendo trotuá no meu ponto. Cadê o marido dela que não chega?
- Onde está seu marido?
- Foi dar uma volta no quarteirão enquanto eu fui deixar um presente na casa de uma amiga aqui perto. Não tinha lugar para ele estacionar e ele deve estar engarrafado por aí na Barata Ribeiro.
- Cadê os seus documentos?
- Estão com meu marido.
- Vamos as duas para a delegacia para averiguação.
- Mas eu tenho que esperar meu marido. Ele já deve estar chegando.
- E eu tenho um encontro pra daqui a pouco, seu guarda.
- Na delegacia a gente resolve. Vambora!
Confusão aprontada, entram as duas no camburão e seguem bufando de raiva para a delegacia da Avenida Copacabana. Os curiosos se deliciam com o fato:
- O que é que foi?
- Duas putas brigando pelo mesmo ponto.
- Uma delas roubou o marido da outra e estavam acertando contas.
- O amante da loura trabalha na delegacia e ela viu o amante se beijando com a outra na Barata Ribeiro.
Na delegacia, as duas se fuzilam com o olhar. O delegado já não sabe mais em quem acreditar. Muitas horas depois, chega o marido. Situação esclarecida, os dois vão indo embora, deixando Maria Hortência com H presa por vadiagem e agressão física. Fula de raiva, Maria Hortência não se conforma:
- Ei, aonde vocês pensam que vão? Quem é que vai pagar pelas horas que perdi?

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