Simpática ela não era, mas também não era feia. Coitada! Como se isso fosse um pecado...
Todos os dias às seis da tarde ia ela pela rua, saltitando dentro de seu vestidinho rosa, cabelos lisos soltos ao vento, meio quilo de maquiagem pressionando sua pele e aumentando o seu peso a tal ponto que os saltinhos de ferro de seu sapatinho dourado mal suportavam o total desequilíbrio ecológico do seu ser.
A esquina entre a Gomes Carneiro e a Bulhões de Carvalho era o seu ponto preferido. Maria, como a maioria das marias Outro-Nome, preferia ser chamada de Hortência, com H, fazia questão de soletrar. Era mais chique, como era a mais chique das chiquitices transar na Vieira Souto. Cobertura então, era o sonho dourado. E duplex? Imagina! A simples idéia causava-lhe ânsias, um calafrio diferente na alma. Adorava ter várias opções de escolha, como ela própria costumava dizer. Não adiantava tentarem lhe explicar a proximidade semântica entre as palavras opção e escolha. Para ela era termo feito e muito bem feito. Chic! Vocês devem estar se perguntando por que a esquina entre a Bulhões de Carvalho e a Gomes Carneiro e logo às seis da tarde! Nem eu sei. Maria, desculpem, Hortência tinha lá os seus segredos que só a ela pertencem.
Eis que um dia vai ela cumprir seu ritual quando se depara com uma multidão que assistia à gravação de uma novela de televisão, bem no seu ponto. Mas logo ali, na sua esquina!, pensa um pouco desapontada enquanto resolve ir até lá e tentar ver um dos seus artistas favoritos, o seu “galão”, como ela chama; quem sabe ele não... treme só de pensar. Frustrada, Maria Hortência com H volta para casa sem ter visto seu galã preferido nem nem. Dorme desapontada, acorda fula de raiva e espera ansiosamente a noite chegar.
A noite finalmente chega empurrando Maria Hortência com H de Azevedo Fontes Silva para a rua.
Um casal para um carro na esquina.
- Meu bem, enquanto você sobe para entregar o presente de sua amiga, eu vou dar uma volta no quarteirão pois aqui não tem lugar para estacionar. Vá rápido e me espere aqui na esquina, tá?
E lá vem Maria Hortência com H, no seu vestidinho rosa e no seu sapatinho dourado, cabelos alourados dançando com o seu requebrar. Ao chegar à esquina e se deparar com aquela mulher parada no seu ponto, olhando aflita para todos os carros que passam, Maria explode:
- Você não tem outro lugar para fazer pista não, meu bem? Esse ponto aqui é meu, entendeu? Suei um bocado para achar ele e agora vem você querer roubar ele de mim.
- A senhora está enganada...
- Senhorita, faz favor.
- Desculpe, a senhorita está enganada, é que eu...
- Enganada coisíssima nenhuma! Hoje já não se pode ter mais opção de escolha que vem logo uma sirigaita querer tomar o que é da gente. Por que cê não vai batalhar no calçadão da Atrântica?
- Olha aqui, a senhora me respeite...
- Senhorita, num já disse? Não sou casada não, minha filha, e nem quero.
- Mas eu sou!
- O quê?
- Casada. Olha aqui a aliança.
- E eu lá com isso? Tá querendo vim tirar partido pra cima de muá? Aliança qualquer um pode comprar e usar...
- Olha aqui, dona...
- Sai pra lá, minha filha, que eu num sou dona de ninguém.
- E eu tampuco sou sua filha. Quer favor o favor de escutar? Deve estar havendo algum equívoco. Estou esperando...
Aquilo era demais para ela. Admitia tudo, menos uma colega que soubesse mais palavras difíceis do que ela.
- Quívoco coisa nenhuma! Tá querendo me ofender, é? Além de vim roubar o meu ponto, inda vem mim xingar a mim? Muá?
- Quer fazer o favor de ouvir, droga? Não me faça perder a classe!
- Crasse? Que crasse? Tenho muito mais crasse que você, fique sabendo. Já transei até em cobertura!
- Quer me ouvir? Eu estou esperando o meu marido que foi dar uma volta no quarteirão porque aqui não tinha lugar para estacionar.
- Nem vem que não tem, camarão. Essa história eu já conheço não é de hoje! Inventa outra que talvez pegue. E vai saindo daqui que esse ponto é meu e você já está espantando meus fregueiz!
- Sai pra lá você, sua descarada!
- Descarada é a mãe, viu!
- Escuta aqui, sua puta oxigenada...
Foi a gota d’água. Que chamasse Maria Hortência com H de puta, ainda ia, mas que não revelasse o segredo do seu sucesso.
- Oxigenada é a puta que lhe pariu!
E foi uma bolsada só na cara da mulher que caiu sentada na calçada, levantou-se, e partiu para cima da outra com unhas, dentes, e sangue escorrendo pelo nariz.
- Sua vaca!
- Sua porca! Égua imunda! Sai do meu ponto agora desgra... Larga o meu vestido rosa. Não rasgue ele ou eu te mato!
E Maria Hortência com H preparava-se para tirar o sapato dourado com o seu saltinho afiado, quando passou uma rádio-patrulha e separou as duas. Em volta já se formava uma pequena multidão de curiosos. Um dos policiais pergunta:
- O que é que está havendo?
- Eu estava parada aqui na esquina esperando o meu marido chegar quando apareceu essa vagabunda dizendo que eu estava roubando o ponto dela.
- É mentira, seu guarda! Ela tava mesmo fazendo trotuá no meu ponto. Cadê o marido dela que não chega?
- Onde está seu marido?
- Foi dar uma volta no quarteirão enquanto eu fui deixar um presente na casa de uma amiga aqui perto. Não tinha lugar para ele estacionar e ele deve estar engarrafado por aí na Barata Ribeiro.
- Cadê os seus documentos?
- Estão com meu marido.
- Vamos as duas para a delegacia para averiguação.
- Mas eu tenho que esperar meu marido. Ele já deve estar chegando.
- E eu tenho um encontro pra daqui a pouco, seu guarda.
- Na delegacia a gente resolve. Vambora!
Confusão aprontada, entram as duas no camburão e seguem bufando de raiva para a delegacia da Avenida Copacabana. Os curiosos se deliciam com o fato:
- O que é que foi?
- Duas putas brigando pelo mesmo ponto.
- Uma delas roubou o marido da outra e estavam acertando contas.
- O amante da loura trabalha na delegacia e ela viu o amante se beijando com a outra na Barata Ribeiro.
Na delegacia, as duas se fuzilam com o olhar. O delegado já não sabe mais em quem acreditar. Muitas horas depois, chega o marido. Situação esclarecida, os dois vão indo embora, deixando Maria Hortência com H presa por vadiagem e agressão física. Fula de raiva, Maria Hortência não se conforma:
- Ei, aonde vocês pensam que vão? Quem é que vai pagar pelas horas que perdi?
A professora, recém-formada, acaba de fazer a chamada dos alunos e começa a corrigir o dever de casa, no seu segundo dia de aula.
- Ana, levante-se e leia sua redação
Ana levanta-se de sua cadeira meio ressabiada, pigarreia umas duas ou três vezes para afugentar o medo e então inicia sua leitura:
- “E a noite encobriu toda a Terra. E vieram anjos e arcanjos e tentaram inutilmente envolvê-la com sua luz. Mas a luz se fez fraca e a escuridão apagou toda a claridade. Os homens vaguearam cegos nas trevas com saudade da plenitude. E o infinito seguiu a esmo, rolando errante pelo espaço em busca da luz perdida.”
Ana olhou temerosa para a professora como a pedir aprovação. A professora seriamente comanda o silêncio por alguns segundos e, a seguir, começa o interrogatório:
- Muito bonito, Ana.
- Brigada, pró.
- Foi você quem escreveu isso?
- Foi, sim senhora.
- Não pode ser. Você está mentindo.
- Não, senhora.
- Ana, não minta para mim. Quem fez isto para você?
- Foi eu, professora.
- Não foi não. Não pode ter sido você.
- Por que não, pró?
- Você copiou isso de algum lugar, não foi? Foi da Bíblia?
- Não foi, não, senhora.
- Pode dizer que eu não me importo. Eu não vou lhe dar uma nota baixa por isso, não.
- Mas, professora, a senhora quer que eu minta? Se foi eu que escreveu isso...
(corrigindo) – “Quem”...
- Eu, professora.
- Estou sabendo. É o que você está dizendo. Estou apenas lhe corrigindo. Fui eu “quem” escreveu isso.
- Não, senhora!
- Não, minha filha. Não é nada disso. Estou corrigindo um erro de Português.
- Qual?
- “Foi” eu “que” escreveu.
- Não foi não, professora. Foi eu!
- Complete!
- O quê?
- Sua frase.
- Ela está incompleta?
- Está sim.
- Como é que ela pode estar incompleta se tem verbo e sujeito? Foi eu que escreveu e a senhora está dizendo que eu copiei da senhora?
(impaciente) – “Fui eu quem”, minha filha.
- Eu, professora, não já disse?
- Minha filha, se diz: Fui eu que escrevi ou fui eu quem escreveu.
- Nem uma coisa nem outra, professora, pois foi eu e não a senhora!
A essa altura a professora já não sabia mais o que fazer.
- Venha ao quadro e escreva essa frase.
- Qual?
- A que você acabou de dizer.
- Pra quê?
- Para você ver que não “foi eu que escreveu” e sim que “foi você quem escreveu isso”, ou “fui eu quem escreveu isso”.
A menina vai ao quadro, sem entender nada do que se passa na cabeça daquela professora exigente que havia implicado com ela, e escreve:
FUI EU QUE ESCREVI ISSO
- Agora escreva a outra.
- Qual?
- “Foi eu que escreveu”
- Não, professora, a senhora não escreveu nada.
- Ainda não, minha filha, mas ainda vou escrever um tratado sobre como lidar com alunas ignaras como você.
(Risos. A professora desistira de todos os conhecimentos de Psicologia da Educação).
- Eu sou ignorante, professora?
- Não, minha filha. Eu disse que você é ignara.
- Professora, a senhora não me xingue. Vou contar pro meu pai.
- Você pode contar para o seu pai, sua mãe, sua tia, seu avô, sua avó, seu bisavô, para o diretor da escola, até para o Presidente da República, que eu continuo achando a mesma coisa.
- Professora, meu pai é do Exército!
- E eu com isso?
- Ele pode lhe prender, sabia?
- Olhe aqui, minha filha, não tenho medo de ameaças de aluno nenhum, entendeu? Seu pai pode ser do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, ou de todas as forças Armadas juntas, que eu pouco estou ligando, pois estou dentro dos direitos que a Lei 5692 me compete e, se tem alguém aqui que pode ser preso, essa pessoa é você. Você sabia que plágio dá cadeia, Ana?
- Que plágio, professora?
- Esse aí que você acabou de cometer, copiando uma coisa e dizendo que é de sua autoria.
- Mas se foi eu que escrevi.
(corrigindo mais uma vez) – “Fui eu que escrevi”, Ana, ou “fui eu quem escreveu”, ou “foi você quem escreveu”.
- Foi eu, pró.
(gritando) – “Fui eu!”
- Não pró, fui eu.
-Está bem, Ana. Você pode ter escrito, copiando com sua letra, mas isso não quer dizer que foi você que escreveu. E vê se aprende de uma vez por todas que é “fui eu que escrevi”, ou “fui eu quem escreveu”.
- Tá bom, não foi eu não, professora, mas também não foi a senhora, não. A senhora quer mesmo saber? Foi a minha mãe! Ela é professora de português!
- ’ morning! TOW-U World Away Traveler, ’ help ya? cumprimentou-me uma voz do outrolado da linha, comendo metade da pergunta e traduzindo para a linguagem a correria da cidade. A voz, emboranão soasse suavecomo a noite de Fitzgerald, tinhaumcertoquê de calorhumanodifícil de se encontrarpor essas plagas nova-iorquinas.
- Bom-dia! - respondi eminglês. - Umamigome informou quevocês possuem umserviço courier compassagensbembaratas. Gostaria de saber se vocês oferecem esseserviçopara o BRAZIL, enfatizei bemparaevitarconfusões às quaisjá havia me acostumado devido ao parcoconhecimentogeográficoque abunda poraqui.
- Claroquesim! Quecidade no Brasil o senhordeseja? - espantou-me a voz, que sabia que no Brasil havia cidades! Finalmente estou lidando comalguémque faz parte das raras exceções.
- Olha, estou planejando irparaSALVADOR, na BAHIA, disse, articulando as vogais e consoantes à americanaparanãoprovocardesentendimentos.
- Temos sim - respondeu-me a vozsimpática. Temos vôospara San Salvadorcomescalas.
“Êpa! Começou!”, pensei comminhagola, poisminhacamisa de malhanãotinhabotões.
- Escute - disse eumeioapreensivo, já temendo umoutrodesfecho e irparar no meio de alguma guerrilha na América Centralcomo ocorria há algunsanos. - Estou falando de Salvador, capital da Bahia, B-A-H-I-A (soletrei), no Brazil, América do SUL! Embora algumas pessoas chamem Salvador de SãoSalvador, elanão é em El Salvador, o país da América Central, entende? - enfatizei, acostumado com o desvio de minhascartaspara El Salvador, atéaprender a colocaremletrasgarrafais SOUTH AMERICA ao lado da palavratambémgarrafal BRAZIL, pois o nome do paíssónãoeragarantia de destinopara os funcionários do correioamericano. Na minhamente vinham lembranças de adolescênciaquando fiz o exame de proficiência eminglês da universidade de Michigan. O exame havia sido adiado pois as provas foram parar naquele paísemvez de irparaSalvador da Bahia.
- Sei muitobem, senhor. San Salvador, na Bahia, no Brazil. Sim, temos vôosparalá.
Não acreditei! A vozme surpreendera mesmo. E aindaporcima, ela conhecia o termoSãoSalvador, essejeitotãocarinhosoquenósbaianos usamos para se referir a ela. Achei uma fofura alguémemNova Iorquechamar a minhaqueridaSalvador de San Salvador. Ecos de Caymmi me chegavam aos ouvidos na vozdoce (quandoeradoce) de Gal Costa, trazendo saudades inusitadas do nossoritmolento, faceiro, amigo, cadente. De repente, me sinto envoltopelamagiabaiana, sentindo atéumcheiro de acarajé no ar, coisasque contrastavam totalmentecom o barulho, correria e a famosaatitudenova-iorquina. Me senti culpado de estar fazendo poucocaso e maljuízo dos conhecimentosgeográficos da voz. Mastambém, depois de umano respondendo às perguntas de meuscolegas de doutorado se a capital do Brasil é Buenos Aires e se nós falamos espanhol, nadamaisme surpreendia e desenvolvi uma atitude blasé paralidarcomessetipo de pergunta. A vozerarealmente uma exceção!
- E quantocusta a passagem? - quis saber.
- A passagemida e voltacusta 280 dólares.
- A senhorita tem certeza de que é esterealmente o preçoparaSalvador, Bahia, Brazil? - repeti incrédulo, embora o textoeminglês tivesse sido politicamente corretoparaevitarconfrontofeminista de preconceitosexual, coisaque tive quemeacostumar a duras penas, pois se você desconhece o jargãofeminista, você acaba quebrando a cara e sofrendo reprimendas iradas das mulheres.
- Absoluta! Temos umvôoque sai depois de amanhã. O senhorquerfazerreserva?
“Depois de amanhã!?”, pensei, dessa vezcácom as mangas da camisa. Precisava refletir.
- Olha, posso ligarnovamenteparareconfirmardepois? Sabe como é, não estava pretendendo viajarassimtão de supetão, emcima da hora. Preciso de umtempoparapensar se terei condições.
- Poisnão, senhor. E qual é mesmo o seunome?
- Cruz - dei o meuúltimonome, pois o primeiro é uma dificuldadeterrívelparaeles pronunciarem. - C-R-U-Z - soletrei paraqueelanão pensasse queeueraparente de Tom Cruise, comojá haviam me perguntado várias vezesdevido à semelhançafonética.
- Ah, seunome é espanhol?
- É sim, como é que adivinhou?
Não sabia se ela queria dizerhispânicoemvez de espanhol, e nunca se sabe se há umpreconceitoportrás da pergunta, jáque os hispânicosnãosãotãobemvistospelosbrancoscaucasianos da gema, ou seja, aqueles WASPS conservadoresferrenhos. Continuei com o meucinismo:
- Na verdade, meunome é brasileiro da cruz (e não da silva), mas a minhapretensaárvoregenealógica indica queminhafamília é originária de Sevilha, na Espanha, antes de meusancestrais se debandarem peloresto da penínsulaibérica, atravessarem os mares, e se engalfinharem pelas florestas brasileiras, metendo umpé na taba e outro na senzalaalheia, se você consegue entender a ironia do meudiscurso pós-colonial. Como?! Não, não moramos maisemflorestas, a únicaflorestaque sobrou foi a amazônica, poismeusancestrais eram tão anti-ecológicos quanto os seus, talvezumpoucomenos, porquepelomenos a Amazônia ainda está lá, atéquando, sóDeus sabe! A gente vive emcasas e edifícios, localizados emruas e avenidas, emcidades modernas e antigas vilas coloniais, algumas grandes, outras pequenas, outras gigantescas, quenemaqui. Mas, continuando, meuoutronome, Torres, vem de Toledo, também na Espanha, e não Toledo em Ohio. Agente no Brasil é tudo uma misturasó, e acho que é porcausa dessa minhaascendência espanhola que o povo daqui fica me perguntando se no Brasil falamos espanhol, não é? Ah, vocêtambémnão sabia quenão falamos espanhol? A gente entende espanholporque ambas são originárias do LatimVulgar, mas os falantes de espanholnãonos compreendem. Porque? Acho que é porcausa do sistemafonético, nossalíngua tem maissonsqueemespanhol. Não, não falamos latimvulgar na América Latina, mas falamos umbando de vulgaridade, sim! Não, nossalínguanão é brasileiro, brasileiro é nossanacionalidade. Emboramuitagente ache quenossalíngua seja brasileiramesmo, comoaquimuitagenteachaquevocês falam americano e nãoinglês, nós falamos português-brasileiro e não português-português, entende? Sim, claro, de Portugal. Como é que os portugueses foram parar no Brasil? Sei lá, dizem que foi porcausa de uma falta de vento no mar, masisso é históriapraboidormir. Na verdade os portugueses estavam era caçando umas indiazinhas paracomer, sacumé? Sim, sei queeles foram politicamente incorretos, masisso foi há quase quinhentos anosatrás, e os portugueses não eram nadapuritanoscomo os ingleses. Espanhol? Sim, espanholfrancês, holandês, e depoisveiogente de todocanto, quenemaqui, sóquelá o povo se misturou mesmo!
Resolvi brincarcom a voz, revelando umpouco de intimidadesfamiliares e históricas paraquebrar o tomimpessoalque essas conversas telefônicas sempre adquirem, coisaque adoro fazer. Lembro quequando liguei para a NYNEX instalar o meunovonúmerotelefônico, fiquei horas de papocom a telefonista, que, inusitadamente, parecia nãoternada a fazer na vida a nãoserfalar ao telefone. A voz da companhiatelefônica acabou me contando metade da vida dela, filhos, gato, e cachorro! Afinal de contas, telefone é paracomunicação, não é? E haja papo! Essas coisastambém acontecem poraqui, principalmentequando a solidão ataca.
- E quaissão as condições? - perguntei interrompendo meudevaneio.
- Bem, o senhornão poderá levar nenhuma bagagemalém de uma pequenamala de mão, e terá queretornardentro de uma semana. Naturalmente, como se trata de serviço courier, o senhor terá quelevar uma encomenda.
- Ah, é? E como vou saber se não estarei carregando alguma muamba, oudroga, oubomba, sei lá? - perguntei paramecertificar.
Issotudo dava à viagemumtom de transgressão, de risco e aventura, à la James Bond.Já pensou se carrego algoproibido e me barram na alfândega, qual seria a manchete dos jornais? “Professoruniversitário, com a desculpa de estar fazendo doutorado no exterior, foi pegocom a mão na botija contrabandeando drogas!” - imagino a páginapolicial do Jornal A Tarde. O que diriam meuscolegas e amigos? Décio, o espiãovestidoque abalou Salvador, parodio os folhetins dos anos 70: “Giselle, a espiã nua que abalou Paris”.
- Meusenhor, os nossosserviçossãoseguros e de altaconfiança! - repreendeu-me a voz, destruindo o balão da minhafantasiaem quadrinhos.
- Desculpe, erasó uma brincadeira - minto. - Voltarei a ligarmaistarde.
- Poisnão, senhorCruz, fico aguardando a sualigação.
- E qual a suagraça? - perguntei emtom de gozação.
- Perdão?! - retrucou ela, literalmentecomoeles costumam dizerporaquiquandonão entendem algo. Elanão havia captado a brincadeira no estilo shakespeariano. Tambémeraquererdemais da pobrecoitada, acostumada comroteirosbemprecisos, demarcados de ponto-a-ponto. Na suapequenacabineonde provavelmente deve atender as ligações, não havia muitoespaço sobrando paraimaginaçãoouabstração. Tudo deveria se resumir à objetividade e a precisão da linguagem. Semmetáforas.
- Qual é o seunomeparaqueeu possa contactá-la diretamentequandovoltar a ligar e nãoterquemeperder no labirinto borgeano e no processopenal da burocraciatelefonistakafkiana? - perguntei, obviamente omitindo as referências literárias paranãoconfundirouentediar a moça (ou a senhora, ou o senhor, sei lá! Quemme garante quenão havia umtravesti de vozmacia, tipola Close, do outrolado? Nessa cidade pós-moderna, tudo é possível e tudo o queeutinhacomofonte de referênciaeraapenas uma voz).
- Ah, sim, desculpe. Me chamo Mary! - respondeu enfática, estranhamenteme dando o prenome.
“Mary! Quecoisamaisimpessoal, comum, e no entanto, pura! Como deve serterumnomeque reporta sempre a umsímbolo de virgindade e santidade?”, pensei comigomesmo.
(Existe outraforma de pensar a nãoserconsigomesmo? É cada uma! [Oucada duas?] Português tem tantamaluquicegostosa de se brincar, principalmentepiada de português! Depois de doisanos afastado da minhalíngua, me deleitava comcertasexpressões, e sentia saudades de nossas brincadeiras, de falarbesteira, do dicionário de baianês. O povo daqui é sériodemais).
- Obrigado, Mary. Te ligarei maistarde.
A alegriame invadiu de repente. Quemaravilhapoderpassar uma semanaemSalvadorpelomesmopreçoque gastei parair a Daytona Beach no Spring Break, essas férias de uma semanaquesão concedidas aos estudantesamericanospara poderem fugir do tédio infernal e do frio invernal! Contactei o meuamigo Daniel, que havia medado a dica, paraconfirmar se nãoeraarmação, e depois fui passear pelas largas ruas de Manhattan emdireção ao Central Park. Traduzido literalmente, “parquecentral”, não sei porquecargas elétricas, sempreme lembra uma marca de biscoitocreme cráqui, embom baianês. Qual será a sensação de comer, no ParqueCentral, biscoitoÁguiaCentral (oubolacha, como se diz no interior da Bahia)?
Ó, dúvidas filosóficas de besteirol queme transportam aos cacosteatrais de minhaamiga Fanta Maria da Bofetada, agoraSantaNoviçaRebelde. Lembrei de outra historia queumamigome contara. A tia dele, bembaiana, visitando Nova York e querendo ligarparacasa a cobrar, dirige-se a umguarda na rua e perguntaem baianês: “Moço, onde é que fica a Telebahia daqui?”
Rio das minhas próprias maluquices. A vontade de estaremSalvadoreramaior do que a de ver o show de Gilberto Gil programado para o Parque na próximasemana. E se essa passagemnão fosse paraSalvador? No anoanterior, quase perdia minhareservaemumvôopara Daytona Beach, na Flóridaporque a agente da American Airlines tinhame colocado emumvôopara Dayton, Ohio, que de Beach não tem nada. Além de terquefazermilhares de escalas desnecessárias, iria pagar o triplo do queme custaria, parairparaumlocalquenão pretendia ir.
A gente reclama quebrasileironão sabe escrever, mas o americano escolarizado é péssimoemortografia. Seráque a normaescrita está fadada ao esquecimento?, divago enquantopasseio. Lembro a história do homemque foi pararem Atenas, na Grécia, quandoelesó queria irpara Atenas, no Texas. Ouera Atenas na Georgia? Tambémnão culpo as pobres coitadas quesão bombardeadas por uma propagandaconstante de que o mundo é aqui. Paraconfundirmaisainda, várias cidades possuem o mesmonome de cidades européias e de xarás americanas: Atenas e Paris, no Texas. Nápoles na Flórida. Toledo em Ohio, e Salamanca emNova Iorque. Até uma réplica de Nueva Jork, como hablan los hispanicos, pode ser encontrada agoraem Las Vegas. Eviva o país do simulacro! Como se não bastasse as cidadesaqui serem todas iguais umas às outras, com raras exceções, os nomestambémpouco importam. É tudopadronizado: American Standard (padrãoamericano) que, ironicamente, é uma marca de privada.
Ando peloparque lembrando de Simon e Garfunkel, Olodum, John Lennon. A músicame acompanha. Ao longe, escuto umgrupo de músicosandinos tocando El condor pasa. Penso, repenso, decido! Precisovoltar às minhas raízes. Não, a minhavoznão ia fazer uma sacanagem dessas. Mary é umnomepuro e virgemdemaisparaisso. E lá fui eufeliz da vidareconfirmarminhareserva, antevendo e antegozando (pode-se gozarporantecedência?) os prazeres da terra brasilis.
- Boa-tarde! Senhorita Mary?
- Sim, eumesma, quemdeseja?
- Aqui é aquelebrasileirochatoquelhe encheu de perguntas de manhãsobre a passagemparaSalvador.
- Ah, sim, senhorCruz. O senhorquerconfirmarsuareserva?
- Sim, masantesainda tenho uma pergunta. Onde é a primeiraescala?
- Deixe-me ver no computador. Ah, o senhor vai pararem San Juan e depois segue para San Salvador.
- Vocêquerdizer, Salvador da Bahia, não é?
- Sim, lámesmo.
- E qual é o nome da companhia?
- QWFRT Linhas Aéreas.
- Não entendi.
- QWFRT Linhas Aéreas.
- Estranho, nunca ouvi falar dessa companhia. Ela vai até o Brasil?
- Vai sim.
- E qual a duração do vôo?
- O senhor sai de Nova York até San Juan, sãotrêshoras e meia. De San Juan até San Salvadorsãomais duas horas.
- Estranho. Cincohoras e meia de vôosomente?! O mínimosãooitohoras e meia.
- Sósãocincohoras e meia de vôo de Nova York até San Salvador.
- Mary, semquererserchato, masvocêpoderiaconfirmar se esta cidadepara a qualvocê está me mandando, commuamba e cuia, é no Brasil mesmo?
- Ummomento.
Pausasilenciosa. Escuto o barulho do teclado do computador do outrolado.
- Sr. Cruz, infelizmente a nossalinhanão opera com o Brasil, sócom a América Central.
- O quê!!? - exclamei indignado. - Mary Virgem do céu, como é quevocême faz perdermeu tempo e toda a minhaemoçãoquandodesde o começoeuvinhalhe dizendo queeu queria irparaSalvador da Bahia, Brazil, América do Sul, e nãopara San Salvadorem El Salvador, América Central? O que vai acontecercomtodos os planosque alimentei durante o intervalo do almoçoatéagora? O que será dos meussonhos de fugir dessa cidade, ondetodomundo vive deprimido e irritado, paraver os amigos, família, minhaterra, passearpelapraia, ao solou na chuva de junho, tomarágua de coco, comerumacarajéem Itapuã comguaranáoucerveja, passear pelas ruas colonais do Pelô ao som do Olodum ou do Ilê Ayê? Dançarforró, comermilho e canjica, tomarlicor? A senhorita sabe o queisso significa? Não é a mesmacoisaquecomerfeijoada na rua 46 ouem Newark!
- I’m sorry, sr. Cruz. Infelizmentenão compreendo nada do que está dizendo, nem posso fazernadapelosseussonhos. Talvez o senhordeva acomodá-los à realidade. Se quiser irpara San Salvador, o vôo sai depois de amanhã. Casocontrário, passarbem. - e desligou, deixando-me a verbarcos valsando na águaazul do Porto da Barra projetados na paredeazul do apartamento de minhaamiga Rúbia.
Como posso passarbemdepois dessa decepção? Talvez a não-tão-virgem mãe-do-filho Mary tivesse razão e eu devesse irconhecer a homônima de minhacidade. Outalvezeu devesse escreverpara o prefeito de Salvador requisitando a volta do antigonomepopular de Cidade da Bahia. Certamente, se os governantes tivessem adotado a fala dos personagens do amado Jorge, eunão teria passadopor essas tribulações. Maspersonagensliteráriossó fazem estória, pois a História, da mesmaformaque o minúsculocubículo de Mary e suaindiferença aos sonhosalheios, não tem lugarpara a imaginação.
Publicado emversão bilíngue português/inglês na revistaBrazzil e emportuguês na revistaAve, palavra. Referênciasparacitação:
CRUZ, Décio TorresouCRUZ, D.T. Conversa ao telefone. Brazzil. Los Angeles, v.141, p.28 - 33, 1997.
CRUZ, Décio TorresouCRUZ, D.T. Talking on the phone. Brazzil. Los Angeles, v.141, p.28 - 33, 1997.
CRUZ, Décio TorresouCRUZ, D.T. Conversa ao telefone. Ave, palavra.Revista de CriaçãoLiterária. Salvador:EDUFBA, 2000.
Doutor em Literatura Comparada pela State University of New York em Buffalo, nos Estados Unidos (bolsista Fulbright), mestre em Teoria da Literatura, especialista em tradução e bacharel em Letras, com concentração em língua e literatura de língua inglesa pela Universidade Federal da Bahia. Bolsista dos Companheiros das Américas no Programa Professor Residente do Instituto de Línguas ELS, na Universidade St. Joseph’s, na Filadélfia, Estados Unidos, e do Programa DAAD em Bonn, na Alemanha. É autor dos livros Inglês para Administração e Economia, Inglês para Turismo e Hotelaria e Inglês.com.textos para informática, publicados pela DISAL, e O pop: literatura, mídia e outras artes, publicado pela Quarteto/UNEB. Possui vários trabalhos publicados no Brasil e nos Estados Unidos (contos, crônicas, poemas, traduções, artigos e ensaios sobre áreas diversas como cinema, arte, teatro, literatura, lingüística aplicada, tradução, estudos culturais, e metodologia do ensino de língua inglesa). Atua como Professor no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFBA, na UNEB e na Faculdade Ruy Barbosa.